From Photography to the Microphone: A Participatory Approach to Climate Education in Mozambique
Imagine a 10-year-old child photographing human waste on a wall separating the road from the beach, just outside their school on Mozambique Island, a place where open defecation remains common and poses a serious public health issue. The child dictates the caption: “This makes me sad because waste pollutes the world and can harm plants.” Now imagine that same child, a few days later, presenting their findings at school and on community radio. as a journalist, a researcher, a citizen.
This is exactly what the project Empowering the Future: Children’s Voices and Actions in Climate Change Education in Mozambique is doing. Funded by the British Academy and led by the 海角黑料 in partnership with the NGO CoMeDia (Communication, Media and Dialogue), the project is built on a simple but radical premise: children are not just victims of climate change, they are knowledge producers and agents of change.
The problem no one wants to see
Mozambique is one of the countries most vulnerable to climate change. With nearly 2,800 km of coastline and inland regions prone to prolonged droughts, it regularly faces cyclones, flooding, and water scarcity. Many schools, particularly in rural areas, are built with fragile local materials such as thatch, mud, and corrugated metal, often without toilets or access to clean water. These schools are among the first to suffer when climate impacts intensify.
Yet, policy responses lag behind. Climate education is only superficially addressed in national education strategies, and the role of schools remains unclear in adaptation policies. The result is a structural silence: fragmented, NGO-led initiatives with no clear mandate or sustained funding, which leave teachers and students without the tools to understand or respond to the crisis they experience daily.
A methodology that recognises children as knowledge producers
At the heart of the project is Photovoice, a participatory method developed in the 1990s that invites participants to document their realities through images. In this case, children aged 6 to 12, across six schools in southern, central, and northern Mozambique, used mobile phones or drawings to capture their perspectives on the environment around them.
The process unfolded across five interconnected stages:
- Preparation: Children explored their school environments using magnifying glasses and shared what they already knew about climate. The finding? They know a lot! About plants, seasons, water, and environmental change, alongside holding strong moral views on waste and pollution.
- Data production: Guided by two questions: “What in nature makes you happy?” and “What makes you sad?” children created photos and drawings, selected images, and explained their choices. The result: rich, child-generated insights combining environmental knowledge and emotions.
- Data analysis: Children worked collectively to categorise images, identify patterns, and generate key questions. Their discussions covered trees, animals, the sea, waste, colonial history, and climate, revealing critical thinking that extended far beyond environmental issues alone.
- Data in action: In groups, children investigated chosen topics, conducted interviews, and produced creative outputs such as poems, songs, and stories. These fed into the production of radio programmes and short broadcasts.
- Dissemination: Children organised school exhibitions and shared their work on local radio, bringing their voices into the public sphere.
Why radio?
In Mozambique, radio remains the most accessible medium, especially in rural areas. When a child speaks on air about environmental challenges, they are not just completing a school task, they are participating in public life.
Radio becomes both a pedagogical and political tool. Children are not just learning about climate and citizenship, they are practising both!
What children teach us
One of the project’s key contributions is confirming what researchers had long suspected: children bring deep knowledge, emotional insight, and genuine critical capacity.
A sunlit hospital associated with happiness. A rain-damaged home linked to sadness. Reflections on waste harming plants. These are not anecdotal illustrations, they are primary qualitative data that reveal how children understand and experience their environments, often with a clarity and urgency that surpasses adult perspectives.
A methodology for replication
Empowering the Future is more than a local initiative: it demonstrates that research can and should place children in the Global South at the centre of knowledge production about the challenges they face. This approach is replicable wherever policies are made about children but not with them, which, unfortunately, is still the norm.
Climate justice requires recognising children as partners in building sustainable futures. Our research and educational methods must rise to meet that challenge.
Da Fotografia ao Microfone: Uma Metodologia Participativa para a Educação Climática em Moçambique
Este artigo apresenta a metodologia de um projeto participativo que dá às crianças moçambicanas as ferramentas para documentar, analisar e comunicar os impactos das mudanças climáticas nas suas próprias comunidades.
Imagine uma criança de 10 anos a fotografar um pedaço de cocó no muro que separa a estrada da praia, em frente à sua escola na Ilha de Moçambique – uma vila onde o fecalismo a ceú aberto representa uma prática comum e um sério problema de saúde pública - e a ditar a legenda: "Isto deixa-me triste porque as fezes poluem o mundo e podem prejudicar as plantas." Agora imagine essa mesma criança, dias depois, a apresentar as suas descobertas na escola e na rádio comunitária — como jornalista, investigadora, cidadã.
É exatamente isto que o projeto Empoderar o Futuro: Vozes e Ações das Crianças na Educação sobre Mudanças Climáticas em Moçambique está a fazer. Financiado pela British Academy e implementado pela Universidade de Nottingham em parceria com a ong CoMeDia – Comunicação, Media e Diálogo, o projeto parte de uma premissa simples mas radical: as crianças não são apenas vítimas das mudanças climáticas, mas são também produtoras de conhecimento e agentes de mudança.
O problema que ninguém quer ver
Moçambique é um dos países mais vulneráveis do mundo às alterações climáticas. Com quase 2.800 km de costa e territórios interiores sujeitos a secas prolongadas, o país enfrenta regularmente ciclones devastadores, inundações e períodos de secas. Muitas escolas — sobretudo em zonas rurais — são construídas com materiais locais e precários, tais como capim, lama e chapas de zinco, sem casas de banho nem acesso a água potável. Estas escolas são as primeiras a sofrer quando o clima piora.
No entanto, a resposta política não é tão rápida como as mudanças climáticas. A Estratégia de Educação 2020-2029 toca no tema de forma superficial, enquanto a Estratégia Nacional de Adaptação Climática é vaga quanto ao papel das escolas. O resultado é um silêncio estrutural: ações fragmentadas, lideradas por ONG, sem mandato claro nem financiamento regular — deixando professores e alunos sem ferramentas para compreender ou responder à crise que experienciam todos os dias.
O projeto nasceu para contribuir nestas duas questões urgentes: os impactos climáticos sobre as crianças e a ausência das vozes das crianças nos processos que definem as políticas que as afetam.
Uma metodologia que reconhece as crianças como produtoras de conhecimento
O pilar central do projecto foi o Photovoice — uma metodologia participativa desenvolvida nos anos 90 que convida os participantes a documentar a sua realidade através de fotografias próprias. Neste caso, foram as crianças — com idades entre os 6 e os 12 anos, em seis escolas distribuídas pelo Sul, Centro e Norte de Moçambique — a segurar o telemóvel (ou os lápis, para quem preferiu desenhar) e a registar os seus pontos de vista sobre o ambiente que as rodeia.
O processo estruturou-se em cinco fases interligadas, cada uma alimentando a seguinte:
Fase 1 — Preparação. Antes de qualquer câmara aparecer, as crianças exploram o ambiente da escola com lupas e partilham o que já sabem sobre o clima. A descoberta? As crianças sabem muito. Elas têm conhecimentos práticos sobre plantas, estações, água e fenómenos climáticos — e também opiniões morais sobre o lixo e a poluição que podem surpreender muitos adultos.
Fase 2 — Produção de dados. Com duas perguntas geradoras de um mapeamento afectivo — "O que vês na natureza que te deixa mais feliz?" e "O que vês na natureza que te deixa mais triste?" — as crianças saem para responder através de fotos ou desenhos. Depois selecionam as imagens, ditam as legendas e explicam as suas escolhas. O resultado é um material rico de conhecimento ambiental, perceção estética e posicionamento moral — tudo produzido pelas próprias crianças.
Fase 3 — Análise de dados. Aqui as crianças assumem o papel que habitualmente pertence ao investigador adulto: em conjunto, elas categorizam as imagens, identificam padrões e atribuem nomes às categorias criadas. Através de um exercício de brainstorming, elas elaboram uma lista de perguntas e mensagens-chave sobre cada uma das categorias criadas. As questões que emergem — sobre as árvores, os animais, o mar, o lixo, a história colonial e o clima — revelam um pensamento crítico que vai além do domínio estritamente ambiental, destacando o conhecimento e a compreensão profunda que as crianças têm acerca dos contextos onde estão inseridas.
Fase 4 — Dados em ação. Divididas em sub-grupos, as crianças investigam os temas que escolheram: consultam materiais nas escolas, identificam fontes na comunidade, preparam perguntas, conduzem entrevistas com especialistas. Em paralelo, cada criança cria uma produção cultural — um poema, uma música, uma história, um texto - relacionada com a categoria que mais lhe interessou. Tudo isto alimenta a produção de programas e spots radiofônicos, que as crianças constroem, ensaiam e gravam.
Fase 5 — Disseminação. As crianças organizam uma exposição na escola — cartazes, fotografias, legendas, excertos de programas — e apresentam as suas descobertas. Os programas radiofónicos são transmitidos nas rádios locais. E, desta forma, as vozes das crianças chegam ao espaço público.
Por que a rádio? Porque o rádio chega a muita
A escolha do programa e do spot radiofónico como produto final não foi casual. Em Moçambique, a rádio é o meio de comunicação com maior alcance, sobretudo nas zonas rurais sem acesso à internet ou à televisão. Quando uma criança de 10 anos fala ao microfone sobre as questões ambientais que afetam a sua comunidade, não está apenas a fazer um TPC — está a exercer a cidadania numa esfera pública real.
A rádio é, ao mesmo tempo, um instrumento pedagógico e um instrumento político. E talvez seja isso o mais poderoso neste projeto: as crianças não estão a aprender sobre educação ambiental e cívica. Estão a praticá-la.
O que as crianças ensinam aos adultos
Um dos contributos do projeto foi confirmar aquilo que os investigadores hipotizavam mas precisavam de provar: as crianças chegam ao processo com saberes profundos, perspectivas afetivas elaboradas e capacidade crítica genuína.
A imagem de um hospital iluminado pelo sol associada à felicidade. A casa batida pela chuva associada à tristeza. O comentário sobre as fezes e as plantas. Estes não são dados "simpáticos" para ilustrar um artigo académico. São dados qualitativos primários que mostram como as crianças percebem, sentem e pensam o seu ambiente — e como essa perceção é, muitas vezes, mais concreta e urgente do que a dos adultos que tomam as decisões.
Uma metodologia para replicar
O projeto Empoderar o Futuro não é apenas uma experiência local. É uma demonstração de que é possível — e necessário — construir metodologias de investigação que coloquem as crianças do Sul Global no centro da produção de conhecimento sobre os desafios que mais as afetam. A abordagem tem potencial de replicação em qualquer contexto onde as políticas falam sobre as crianças, mas não com elas. E isto acontece, infelizmente, na maior parte dos contextos.
A justiça climática exige que as crianças sejam reconhecidas como parceiras na construção de futuros sustentáveis. E as metodologias de investigação e de educação precisam estar à altura dessa exigência.
Posted on Monday 13th April 2026